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Mar de Lama | A Tragédia de Mariana.

Categoria: Curiosidades

MAR DE LAMA Sonhos, histórias e vidas soterradas fotos e texto Douglas Magno edição de texto Thiago Nogueira

O povoado de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), era um lugar de gente simples, onde todos se conheciam. Um paraíso, onde ainda era possível ouvir o canto dos pássaros ao entardecer, sentar-se na calçada, bater um dedo de prosa com os vizinhos ou, simplesmente, varrer o quintal de casa enquanto o feijão cozinhava no fogão a lenha.

Dona Lia morava em Bento, e viu a foto de seus pais, que tinha na parede da sala, ser levada pelo tsunami provocado pelo rompimento da barragem de Fundão.

Os rejeitos destruíram tudo o que tinha pela frente. Não era só uma foto na parede. Eram histórias, sonhos, vidas que a lama levou, deixando um rastro de tristeza e saudade, muita saudade.

Era uma quinta-feira, 5 de novembro de 2015. Estava voltando de uma pauta para a redação com os repórteres Natália Oliveira e Lucas Buzatti. No meio do caminho, uma notícia no rádio nos chamou a atenção: uma barragem de rejeitos havia se rompido em Mariana (MG). As informações ainda eram muito superficiais.

Já estava na hora de ir pra casa, se é que fotógrafo sabe o que é isso. Ao sair do jornal, mais informações: o número de desaparecidos aumentava.

Foi o tempo de passar em casa, pegar mais algumas lentes, carregadores, roupas e seguir para Mariana. Com a companhia do amigo e fotógrafo Bruno Drumond, seguimos viagem. No caminho, cruzamos com muitos carros de polícia e dos bombeiros. A cada minuto, mais informações pelo rádio e, a cada nova notícia, a tragédia ia se desenhando e tomando uma dimensão muito maior.

Chegamos a Mariana debaixo de uma forte chuva. Estava fotografando para a agência francesa AFP (Agence France-Presse). Fomos direto para o ginásio da cidade, local onde os sobreviventes eram recebidos. Um batalhão de moradores chegava com roupas e alimentos.

Caminhões lotados ou sacolas de supermercado com um litro de leite. Não importava a quantidade. Crianças, adultos e idosos. O que se via era uma cidade unida, todos ainda tentando entender o que estava acontecendo.

Fomos para o distrito de Bento Rodrigues, o mais atingido pela tragédia. Seguimos um carro da guarda municipal. No caminho, mais tantos outros carros de polícia, bombeiros, ambulâncias, todos na mesma direção. Passamos por Santa Rita Durão e, logo depois, pegamos uma estrada de terra. Em um descampado, no meio da escuridão, um grupo de trilheiros montavam antenas de rádio amador para ajudar as equipes de buscas assim que o dia amanhece-se.

Um pouco mais à frente um bloqueio: inúmeras ambulâncias, curiosos, sobreviventes e voluntários. Dalí em diante, não era mais possível passar. Descemos e fomos falar com algumas pessoas.

 

Todos pareciam não acreditar, mas aliviados por estarem vivos e preocupados com os amigos que ainda não tinham notícias. Os moradores tentavam achar força. A lama havia levado suas histórias. Não existia mais o “nosso” Bento, forma com que todos se referiam ao pequeno distrito de Mariana.

Estávamos perto, porém, não conseguíamos ver nada. Só escutávamos o barulho da correnteza de lama que, mesmo horas depois, ainda descia levando sonhos, histórias e vidas. Aquele som até hoje não sai da minha cabeça. Eu precisava enviar as fotos para a agência, então, voltamos para Santa Rita, já que ali no local não existia sinal de internet ou celular.

Já era 1h. Perguntei a um morador se por ali teria um local para comer e algum hotel. Ele disse que não. Eu precisava enviar o material e estar ali logo cedo para fotografar. Deixei para pensar nisso depois e fui transmitir as fotos. Como eu não conseguia sinal de internet e celular, uma senhora me passou a senha de internet de sua casa. Da calçada mesmo, eu consegui enviar as primeiras imagens.

Enquanto editava o material e o transmitia, um morador ficou ao meu lado. Ricardo era seu nome. Jeito simples, nascido e criado na região, ele morava em frente ao posto de saúde do lugarejo. Todos o conheciam, e ele conhecia todo mundo da região. Ficamos ali conversando e ele me contando como era o Bento. Acabei a transmissão e ao me levantar e guardar o computador, a esposa de Ricardo me chama e disse: “Fiz um arroz com carne e feijão pra vocês”. Eu não sabia o que dizer. Àquela hora da noite, um casal de desconhecidos, com todo o carinho, preparou uma comida maravilhosa pra mim e para o meu amigo. E ainda teve um suco de goiaba delicioso.

Ficamos ali, conversando. O cansaço e o sono se foram. Mesmo tarde, a cada minuto, aparecia um vizinho na porta. Eram amigos dando noticias, amigos buscando noticias. Ninguém conseguiria dormir. O Bento, o “nosso” Bento não estava mais ali. E a noite escondia aquilo que o dia revelou ser a maior tragédia ambiental do país.

 

Dormimos dentro do carro, questão de uma hora e saímos bem cedinho. Quando cheguei à barreira que proibia a passagem das pessoas para o distrito de Bento Rodrigues, já era possível avistar o cenário de destruição e de dor: carros em cima de casas, muitos animais presos. Os galos cantavam, não como o natural som do despertar, mas como um pedido de socorro. Do outro lado, na parte mais alta, muitas pessoas estavam ilhadas. Eles passaram a noite esperando pelo resgate. Muitos helicópteros, barulhos, sons e, ao mesmo tempo, um silêncio. A lama ainda corria por Bento.

A cada minuto, mais e mais equipes de jornais, emissoras de TV e agências internacionais de notícia chegavam ao local. As equipes de busca começavam os trabalhos para localizar os desaparecidos, e os sobreviventes eram levados para o centro de Mariana. Ficava pra trás a foto dos pais na parede, a bola no quintal, o sonho, a história, a vida. Ficava pra trás o “nosso” Bento.

Em Paracatu de Baixo, outro distrito atingido pelo tsunami de lama, todos moradores conseguiram se salvar, mas deixaram tudo para trás. Cheguei ao local na segunda-feira pela manhã, dessa vez, com o amigo Alexandre Araújo.

Na entrada do distrito, encontrei com três bombeiros voluntários, Jônatas, Everaldo e Carlos Eduardo, que estavam ali para resgatar os animais que ficaram pra trás. O cenário parecia uma cidade fantasma. Nada de bombeiros, polícia. Apenas os três homens. Patos, galinhas, cachorros. Eram muitos animais, alguns atolados, agonizando, outros em cima de casas, parecendo esperar por seus donos.

Enquanto a equipe preparava para fazer o resgate de um pato, uma cadela chorava. Ela estava completamente presa à lama, não conseguia sair. Um dos bombeiros foi caminhando bem devagar. O risco de cair em um buraco coberto por lama era alto. A cada passo, o voluntário se afundava mais no barro, até que conseguiu chegar à cadela. Ela estava assustada, mas logo recebeu carinho e ficou mais calma.

Na quarta-feira, agora pelo jornal O Tempo, fui escalado para registrar a dimensão da tragédia em um sobrevoo. Fizemos um percurso do local do rompimento da barragem, em Mariana, até onde a lama estava chegando pelo leito do rio Doce (naquele dia, os rejeitos se encontravam na cidade de Galiléia, um pouco depois de Governador Valadares). Era um mar de lama, que destruiu Bento, Paracatu, Barra Longa e estava matando o rio Doce, um dos mais importantes rios do Brasil.

Na quinta-feira, voltei para Paracatu, dessa vez pela revista Época. Novamente os três bombeiros voluntários estavam lá, agora resgatando uma porca. Um trabalho muito delicado, pois a lama, superficialmente seca, se transformava em uma armadilha muito perigosa.

 

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